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Praça D. João III, 2

5210-190 Miranda do Douro

Traje

Traje

capa de honras

O traje mirandês era extraído dos materiais naturais que a terra e os animais produziam; a lã das ovelhas, o linho e a seda e transparecem quer a sua rusticidade quer a sua beleza natural. O vestuário interior, quer do homem quer da mulher, era feito do linho mais fino, o lenço, algumas peças eram confecionadas com linho mais grosso a estopa.

O linho cultivava-se em grande quantidade, em todas as povoações da região. Na Terra de Miranda eram cultivadas três espécies de linho: o linho galego, o linho mourisco e o linho cânhamo. O primeiro usava-se para mantelaria e para roupa interior de homem, mulher e criança. O linho mourisco, de textura mais grossa era usado para roupa mais grosseira, sacos de linho e alforges. O linho de cânhamo era usado para fazer cordas.

O Homem mirandês vestia geralmente de pardo e burel e a baeta que as mulheres fabricavam nos teares da região, mas também havia quem vestisse peças de tecidos mais finos importados, desde longa data, como o veludo, a Saragoço, a Segóvia, a estremenha, o lemiste, mamflor e outros. Do fato masculino faziam parte as jaquetas, vestias, rabonas, capas, capotes, pantalonas (calças lisas), camisas, chapéu, gibões, sapatos de couro natural de bezerro, garnachos, jalecos entre outras peças.

A mulher mirandesa usava saia de pardo, baeta, burel ou Saragoça e também de um tecido mais fino como era o armur e a seda. Vestia em baixo da saia o saiote que era de várias cores; desde o vermelho, azul, verde e amarelo. As saias eram de diversos tipos rodadas de pardo livrado ou lisas. A indumentária feminina era constituída por camisa de linho, corpetes, vestidos, mantilhas, mantos de pano e de pardo, lenços para a cabeça, mandis, algibeiras, casacas, jaqués, vestias e peças de seda como coletes e bajus entre outras.

**Texto em Língua Portuguesa**

La vestimenta mirandesa fazie-se de las cousas naturales que la tierra i ls animales dában; la lhana de las canhonas, l lhino i la seda, q’amóstran quier la sue aspereza quier l sou ancanto natural. La roupa de baixo, la de l home i la de la mulhier, fazie-se de lhino mais fino, l lhenço, alguas pieças éran fazidas cun lhino menos buono, la stopa.

l lhino fabricaba-se muito, an todas las aldés. Na Tierra de Miranda éran fabricadas trés culidades de lhino: l lhino galhego, l lhino mourisco i l lhino “cánhamo”. L purmeiro era para fazer mantas i para la roupa de baixo de ls homes, mulhieres i garotos. L lhino mourisco, mais gordo i mais mal amanhado era para fazer roupa mais áspara, sacos de lhino i alforjas. L lhino de cánhamo era para fazer cuordas.

An giral, l home mirandés bestie-se cun pardo i burel i ls panhos de lhana que las mulhieres fazien ne ls telares, mas tamien habie quien se bestisse cun panhos mais finos benidos de fuora, zde hai muito tiempo, cumo tal, l beludo, la saragoça, la segóbia, la stameinha, l lemiste, mamflor i outros. De a bestimenta de ls homes fazien parte las jaquetas, bestias, rabonas, capas, capotes, pantalonas (calças lisas), camisas, chapéu, gibones, çapatos de bezerro, garnachos, jalecos i outras pieças.

La mulhier mirandesa bestie saia de pardo, de lhana, burel ou saragoça i tamien de panhos mais finos, cuno tal, l armur i la seda. Ambaixo la saia, bestie l saiote que era de muitas quelores: burmeilho, azul, berde i amarielho. Las saias éran de muita culidade, rodadas de pardo lhibrado ou lisas. La bestimenta de las mulhieres tenie ua camisa de lhino, corpete, bestidos, mantilhas, mantos de panho i de pardo, lhenços para la cabeça, mandiles, gibeiras, jaquetas, “jaqués”, bestias i pieças de seda, cumo tal, jalecos i “bajus” i outras.

**Texto em Língua Mirandesa**

Capa de Honras Mirandesa

A Capa de Honras mirandesa é umas das marcas indissociáveis da região, e constitui uma peça com grande valor etnográfico. É executada em lã, que depois de tosquiada e lavada, passa por um conjunto de processos de transformação (carmeagem, cardagem, fiação em torno ou em roca, tecelagem e pisoagem) que permitem um pano final espesso e irregular, bastante impermeável e térmico. Era com estas peças de tecido (agora fabricado industrialmente), que o alfaiate (ou costureira) executava a capa, num processo moroso de corte de peças, desenho a giz para reprodução modelar, costura (usando-se essencialmente na atualidade máquinas não elétricas por forma a controlar melhor o seguimento das costuras), recorte e vazamento das reservas, acabamentos bordados, aplicação de franjados, culminando na montagem das diferentes partes. Por fim a capa deve servir ao seu “dono” quase até ao chão.

capa de honras

As linhagens familiares de artesãos que durante séculos fizeram Capas de Honras na região de Miranda, estão hoje representadas apenas pelo Sr. Aureliano António Ribeiro, nascido em 1937,  Maria Suzana de Castro e filhas.

Desconhece-se, em absoluto, as origens da Capa de Honras mirandesa, sendo presumível, contudo, que remonte à Idade Média, atendendo à grande proximidade desta peça de vestuário com a capa de asperges eclesiástica e aos motivos artísticos recorrentes.

A Capa de Honras mirandesa apresenta uma forma base em semicírculo, aplicando-se nesta uma sobrecapa curta (até aos cotovelos) e um capuz. A abertura da capa é guarnecida frontalmente com uma aplicação bordada a dois panos (originalmente um burel de lã), recortado e pespontado (técnica do picado), geralmente recorrendo a motivos padronizados de origem geométrica, fitomórfica, ou em “corações”.

Na parte de trás da capa é comum apresentar-se uma racha também guarnecida com a mesma técnica. A sobrecapa é essencialmente uma peça de resguardo suplementar, também ela geralmente muito decorada, sobretudo nos seus panos mais expostos, recorrendo ainda à aplicação de largas franjas de tecido.

O capuz é a parte da capa mais elaborada, apresentando uma cabeção (espécie de gola) retangular, uma ponta triangular e desta uma aba pendente designada por honra. É no cabeção, na ponta do capuz e na honra que os elementos decorativos são mais elaborados, com recurso ao mesmo tipo de bordado aplicado a dois panos, com reservas abertas à tesoura e pespontado, pendendo também franjas largas. No cabeção podem ser aplicados além dos motivos padronizados, referências ofícios e atividades agrícolas; da mesma forma no bico do capuz por vezes é bordado a data de fabrico ou as iniciais do proprietário. A honra, constituindo a parte mais singular do conjunto, surge, eventualmente, como manifesto da importância social do seu possuidor, mas de algum modo, esta não é uma condição determinante.

Sendo a honra um elemento cuja função prática é desconhecida, parece, de algum modo, remeter mais uma vez para os trajos eclesiásticos, nomeadamente para as ínfulas pendentes das mitras episcopais.

São notórias as semelhanças entre a Capa de Honras com as vestes eclesiásticas conhecidas por Capas Magnas e Capas de Asperges (ou Pluviais), usadas pelos prelados em atos religiosos solenes fora da missa, nomeadamente em procissões, ministério de sacramentos, exéquias e bênçãos. Também neste caso a capa é composta por um semicírculo perfeito, com sebastos ricamente decorados que guarnecem todo o recorte recto da capa e que, em uso, corresponde à gola e face dianteira da veste. Na parte posterior surge um “capuz” estilizado, geralmente em forma de escudete; onde se costuma exibir um lavor mais profuso e, por vezes, os símbolos heráldicos do prelado. Este “capuz”, como geralmente é conhecido, poderá, contudo, ter derivado de uma sintetização da sobrecapa, tanto mais que, no caso dos bispos, estes usariam uma mitra, símbolo de autoridade, prescindindo do uso do capuz.

A designação “asperges” ou “pluvial” são termos que remetem para o acto de bênção por aspersão de água benta, sugerindo uma evolução de capas destinadas a proteger da chuva, para uma capa solene, apenas com função de manifestar a grandeza do prelado.

A Capa de Honras mirandesa, por analogia às vestes eclesiásticas, parece ser uma congénere profana, mantendo, na essência, as mesmas formas e elementos constitutivos: o friso decorativo equivalendo ao sebasto; a sobrecapa, à peça têxtil usada nas costas da capa de asperges; o capuz e a honra, aproximando-se das formas primitivas da mitra e respectivas ínfulas. Apenas uma diferença subjaz: a racha posterior na Capa de Honras, sendo justificável a sua existência pelo tipo de uso, já que este corte na peça têxtil permitiria uma melhor acomodação ao corpo dos equídeos, o principal meio de deslocação usado durante séculos.

Importante será dizer que a Capa de Honras, tal como a Capa de Asperges, surge num processo evolutivo comum (ou paralelo), começa seguramente por ser uma capa para proteger o seu possuidor das intempéries do Inverno, quer em transito, quer em actividades no exterior. As suas áreas decoradas deverão ter surgido da necessidade de reforçar o pano em zonas de maior fragilidade ou sujeitas a maiores tensões. Mesmo o franjado poderá ter surgido naturalmente com o uso regular, em que os tecidos iam sofrendo pequenos rasgões e os bordados vazados dos reaproveitamentos têxteis.

Curiosamente, na atualidade, a Capa de Honras e a Capa de Asperges também apresentam um acentuado pendor representativo e simbólico, já que o seu uso como peça de vestuário decaiu.

**Texto em Língua Portuguesa**

La Capa de Honras Mirandesa ye ua de las marcas que nun se puode apartar desta tierra i ua pieça de grandíssemo balor eitnográfico.

La Capa de Honras Mirandesa fai-se de lhana, que, apuis de çquilada i lhabada, passa por lhargo camino de tratamiento (carmenar, cardar, filar an tuorno ou an ruoca, telar i pisar) l que resulta nun panho spesso i mal amanhado, mas caliente i que nun se repassa de l’auga. Era cun estas pieças de panho (agora fazidas nas fábricas), que l alfaiate (ou questureira) fazie la Capa, un trabalho que demoraba muito, habie que cortar las pieças, dezenhar ls modelos cun giç, questurar (hoije úsan-se las máquinas nó eilétricas para adominar melhor la dreitura de las questuras), recorte i zbaziamento de las reserbas, acabamentos bordados, poner las franjas, acabando todo cula muntaige de todas las partes.

Por fin, la Capa debe serbir l sou “amo” quaije que anté l chano.

Las famílias de artesanos que durante cientos d’anhos fazírun la Capa de Honras na Tierra de Miranda, son hoije repersentadas solo por tiu Aureliano António Ribeiro, nacido an 1937,  Maria Suzana de Castro i filhas.

Nun se conhécen las raízes de la Capa de Honras Mirandesa, mas, assi i todo, cuida-se que benga de l’Eidade Média, bendo las asparecéncias antre esta pieça i la Capa de Asperges de l’eigreija i la arte que ambas a dues ténen.

La Capa de Honras Mirandesa ten un fondo an meio círculo, que lhieba ua subrecapa cúrtia (anté ls quetobielhos) i un carapuço. L’abertura de la Capa ye anfeitada na parte delantreira cun bordados a dous panhos (burel de lhana), cortado i pespuntado (arte de l picado), an geral cun anfeites geométricos, fitomórficos ou an “coraçones”.

Na parte traseira de la Capa hai ua racha tamien anfeitada cula mesma arte. La subrecapa ye ua pieça de resguardo, tamien mui anfeitada, mormiente nas partes que mais se béien, cun lhargas franjas de panho.

L carapuço ye la parte mais trabalhada: ten un cabeçon (spece de gola) an retanglo, la punta an trianglo i colgado de la punta ten la honra. Ye ne l cabeçon, na punta de l carapuço i na honra que hai mais anfeites, siempre cula arte de l bordado aplicado a dous panhos, cun reserbas abiertas cun tejeiras i pespuntado, i tamien cun franjas lhargas colgadas. Ne l cabeçon, par’alhá de ls anfeites que pertence, puode-los haber tamien cun oufícios i trabalhos agrícolas; de la mesma maneira, na punta de l carapuço, a las bezes, ye bordada la era de quando se fizo la Capa ou las purmeiras letras de l nome de l duonho. La Honra, que ye la parte cun mais significado, amostra l’amportáncia social de l duonho, mas nun quier dezir que seia siempre assi.

Nun se sabe para que serbie “la Honra”, mas parece, mais ua beç, apuntar a caras a las bestimentas de l’Eigreija, mormiente para las ínfulas colgadas de las mitras de ls bispos.

Béien-se bien las asparecéncias antre la Capa de Honras i las bestimentas de l’Eigreija chamadas capas Magnas i Capas de Asperges (ou Pluviais), bestidas puls bispos an funçones religiosas solenes fuora de la missa, mormiente an porciçones, para dar ls sacramientos, eizéquias i benziduras.

Capa de Honras

Tamien neste causo, la Capa ten un meio círculo purfeito, cun tiras de panho mui anfeitadas al correr de las bordas de la Capa i que, quando ye bestida, son la gola i la parte delantreira de la mesma Capa. Na parte traseira aparece un “carapuço” singelo, an geral cun forma de scudete, que ye questume ser anfeitado, muita beç culs símbelos heiráldicos de l Bispo ou outro senhor de l’Eigreija. Este “carapuço”, cumo ye conhecido, assi i todo, puode ser l resultado de l zaparecimiento de la subrecapa, tanto mais que, ne l causo de ls bispos, eilhes lhebarien ua mitra, símbelo de mando, i assi nun le fazie falta l “carapuço”.

Ls nomes “asperges” ou “pluvial” son palabras q’apúntan para la benzidura cun auga benta, amostrando un camino zde las capas cula serbentie d’abrigar de l’auga anté ua capa solene, para amostrar l’amportáncia de la gente de l’Eigreija.

La Capa de Honras Mirandesa, por acumparança culas bestimentas de l’Eigreija, parece ser l’armana profana, mantenendo, na raíç, ls mesmos feitius i culidades: las tiras de panho anfeitadas; la subrecapa, la pieça de panho na traseira de la capa de asperges; l carapuço i la honra, asparecidas a las formas antigas de la mitra i las ínfulas. Hai solo ua çfréncia: la racha traseira na Capa de Honras, l que parece ser por bias de l uso que se le dá a la capa, porque esta racha na pieça permetie acamar melhor la Capa al cuorpo de ls burros, de ls machos i de ls cabalhos, an que la gente andaba a cabalho dun lhado pa l outro durante cientos d’anhos.

Será amportante dezir que la Capa de Honras, bien cumo la Capa de Asperges, ténen un camino armano (ou lhado a lhado): ampeça por ser ua capa para abrigar l sou duonho de las termientas de l Ambierno, yá seia para ir dun lhado pa l outro, yá seia para ls trabalhos al aire. Ls anfeites han de haber aparecido por bias de reforçar l panho nas partes adonde mais zlido podie quedar. Mesmo las franjas puoden haber aparecido naturalmente cul uso, quando l panho iba quedando roto i ls bordados de ls riaporbeitamento de l panho.

Hoije, la Capa de Honras i la Capa de Asperges tamien ténen un alto balor repersentatibo i simbólico, yá que quaije naide las usa cumo bestimenta de todos ls dies.

**Texto em Língua Mirandesa**